terça-feira, 11 de junho de 2013

Diálogo com as estrelas


Se eu pudesse ter tido tempo suficiente pra te dizer o quanto sentiria tua falta, talvez tivesse te convencido a ficar, não é? Talvez eu não tenha insistido o suficiente, não tenha te oferecido o suficiente.

Quem sabe a gente podia ter começado do zero, replanejado os nossos planos porque, talvez, um final de semana de pescaria não fosse o suficiente para você, mas na hora me parecia uma ideia tão boa passar todas aquelas contigo contando casos e rindo e sorrindo sem parar... Era uma ideia boa e foi a única coisa que eu consegui te propor naquela hora: Pai, assim que tu sair daqui, a gente vai pescar, tá?!

Lembrando isso, hoje me sinto ridícula. Podia ter te falado tantas outras coisas tão melhores que essa. Podia ter te dito que por ti faria um bis gigante para você comer e uma meia de lã que eu sei tu ama. Eu poderia aprender a jogar futebol que nem profissional só pra tu não se sentir frustrado por não ter tido um filho homem. Ou eu podia te oferecer um carro novo, umas férias longas, uma casa na praia... Mas, caramba, eu só queria ir pescar! E por que, por que isso não foi o suficiente pra ti? Que motivo mais tu precisava para permanecer comigo, pai?

A gente tinha uma vida legal, meu velho, a gente tinha...
A gente tinha tantos sonhos e eu continuo com meu sonho tosco de ver meus filhos brincando contigo assim como tu brincava comigo. Mas o que eu fiz de tão errado assim, meu velho, pra tu me deixar e partir sem mais nem menos como se fosse a coisa mais certa a fazer com aqueles que te amam?!

Em que parte eu falhei que esperar pelo teu abraço de bom dia se tornou um utopia que me detona a alma dia após dia?
Eu podia ter te convencido a ficar, eu deveria ter te convencido a ficar. Mas meu discurso não foi bom, pai, eu sei que não foi. 
Ele nunca é. 
E é por isso que eu me cobro tanto, pai, ah, meu Deus, como eu me cobro!

Mas, se tu quiser voltar, meu velho, pode voltar! Não se acanhe!
Eu deixo as linhas prontas, as cadeiras postas, as iscas feitas e, quem sabe então, eu te convença de que pescar comigo mais uma vez não seja uma ideia tão ruim assim.


(um diálogo com todos os erros de português que ele merece)

2 comentários:

Mário Finard disse...

como sempre, um texto que me emociona. tu é f*!
parabéns.

Luis Echer disse...

Mais do que as mãos e a mente, pode apostar.